Mais um trecho incrível e arrebatador desse livro que nunca mais vai me deixar 'cegar' diante de nossas desculpas e vitimização...
Leiam com muita atenção, estejam realmente abertos ao que ela nos propõe. Vale a pena refletir!
O TEMPO REAL DE DEDICAÇÃO EXCLUSIVA ÀS CRIANÇAS
Quando os pais vêm me consultar por causa de crianças que não têm limites, costumo lhes
sugerir uma tarefa muito difícil. Sem me importar com a idade da criança em questão, peço que se organizem para ficar cinco minutos sentados no chão do quarto das crianças sem fazer nada. Repito: sem fazer nada. Não é necessário que brinquem com a criança se ela não pedir. Só devem observa-la e estar disponíveis. E peço para que na próxima entrevista me relatem o que aconteceu.
Embora possa lhes parecer incrível, quase nenhuma mãe o consegue. Uma vez tocou o telefone, outra vez chegaram tarde de uma festa de aniversário, outro dia foram fazer compras, em outra ocasião a sogra adoeceu. Concretamente, se dão conta dos obstáculos físicos e emocionais que a maioria dos adultos tem para se ocupar 15 minutos por dia exclusivamente de seus filhos, a quem chamam de "sua vida". Não parece crível que isso seja o que há de mais importante para eles, uma vez que sempre há situações mais prioritárias a atender. As crianças esperam, esperam eternamente que se desocupem para poder atendê-las com a cabeça e o coração inteiramente abertos a seus pedidos. Na vida cotidiana, esse instante nunca chega.
Para exemplificar melhor as experiências da criança, costumo pedir aos pais que me relatem com riqueza de detalhes o desenrolar de um dia comum, uma terça-feira, por exemplo. Depois peço que me relatem a mesma coisa como se fossem a criança que conta o decorrer dessa jornada. É muito revelador. E mais ainda quando peço que me contem um domingo, quando se pressupõe que não há pressões do trabalho, horários nem pressa. E descobrem que aos domingos as crianças ficam ainda mais sozinhas do que durante a agitada semana dde trabalho, e que tampouco no domingo conseguiram ficar sentados durante 15 minutos com as crianças no quarto.
Ficar quietos ao lado de uma criança permite que a criança se aquiete sem riscos. As mães fazem exatamente o contrário: quando estão tranquilas, correm para preparar bifes à milanesa aproveitando que as crianças estão "entretidas". Então, a criança interpreta: "Quando estou tranquila e brinco sozinha, perco minha mãe. Por conseguinte, se incomodo, reclamo, choro, minha mãe fica comigo." Por outro lado, se a criança brinca tranquila e as mães ficam tranquilamente no seu quarto, mas disponíveis, a criança aprende que, se brinca sozinha, não corre o risco de perder a mãe. Ou seja, brinca sozinha mas não está sozinha. É uma pequena grande diferença. Não é uma perda de tempo parar alguns instantes a cada dia, embora aparentemente a criança não fale conosco nem nos peça nada de concreto. Porque o que aprende é a capacidade de se satisfazer sozinha, de se acalmar, de saber que pode pedir qualquer coisa a partir do "pedido original", que será ouvido e contemplado. E não se transformará em uma criança sem limites, mas em uma criança que comunica o que acontece com ela.
Lamentavelmente, hoje em dia está muito na moda falar de limites. De fato, sou convidada com frequência a dar conferência sobre os famosos limites. Mas chegou a hora de abandonar a soberba e o autoritarismo e se voltar para dentro de nós mesmo. De investigar e contrar o que não compartilhamos com as crianças, mas acima de tudo, o que nos negamos teimosamente a admitir. Em geral, tem a ver com as limitações afetivas dos adultos, limitações que nos impedem de se relacionar com a alma aberta. As crianças lhes pedem aos gritos que abandonem os disfarces e se encarreguem de construir vínculos a partir da realidade emocional de cada um.
Trecho extraído do livro "A MATERNIDADE E O ENCONTRO COM A PRÓPRIA SOMBRA" de Laura Gutman - psicoterapeuta familiar. p: 211-213
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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011
sábado, 12 de fevereiro de 2011
POR QUE É TÃO ÁRDUO CRIAR UM BEBÊ?
Hoje arrumei um tempinho pra vir atualizar o blog. Permaneço em êxtase com o livro da Laura Gutman e a postagem de hoje é um trecho dele. A vontade que dá é copia-lo inteiro mas sinceramente, vale muito a pena tê-lo em mãos para ler e re-ler quantas vezes quiser!
Aproveitem essas sábias palavras, internalize-as e reflitam sobre sua própria sombra.
"Todas as mães são capazes, desde que tenham um mínimo de apoio emocional, de amamentar, ninar, higienizar um bebê, de proporcionar cuidados físicos necessários à sua sobrevivência. São treinadas para esta tarefa brincando com bonecas durante toda a infância. A dificuldade aparece quando é necessário reconhecer, no corpo físico do bebê, o surgimento da alma da mãe, em toda sua dimensão. Devem admitir sua fragilidade, como "mãe-bebês". Cuidar-se como tal. Respeitar-se com essas novas qualidades. Ser paciente nesta fase tão especial e não exigir de si um rendimento igual ao habitual. Abrir-se à sensibilidade que é aguçada e à percepção das sensações que são vividas com um coração imenso e um corpo que elas, mães, sentem pequeno porque são, ao mesmo tempo, bebê e pessoa adulta.
É como ter o coração aberto, com suas misérias, alegrias, inseguranças, com todas as situações que precisam ser resolvidas, com o que lhes falta compreender. É uma carta de apresentação frágil: isto é o que sou no fundo de minha alma; sou este bebê que chora.
Poderíamos considerar uma vantagem exclusiva das mulheres a possibilidade de desdobrar o corpo físico e espiritual, permitindo que as dificuldades ou as dores pessoais se manifestem com absoluta clareza.
O bebê sente como se fossem seus todos os sentidos da mãe, sobretudo aqueles dos quais ela não tem consciência. A maioria das mulheres não aproveita essa vantagem de ter a alma exposta; é arriscado encarar a própria verdade. No entanto, este é um caminho que inevitavelmente elas percorrerão, embora seja pessoal a decisão de fazê-lo com maior ou menos consciência.
Por isso, ao tentar entender o processo de compreensão dos bebês e das crianças muito pequenas, é indispensável não esquecer que o ser com quem tentamos nos comunicar é, ao mesmo tempo, a mãe que o habita. De fato, as pessoas que trabalham com crianças pequenas deveriam encontrar uma maneira de agir em união com a mãe. Sem a informação pessoal da mãe, sobretudo a informação a que se deve recorrer para que venham à tona, as manifestações das crianças carecem de sentido. Qualquer expressão incômoda do bebê é apenas a melhor linguagem que encontrou para se comunicar. Não é o que acontece; é apenas um modo viável de se expressar.
Quando nossa alma é exposta no corpo do bebê, é possível ver mais claramente as crises que ficam guardadas, os sentimentos que não nos atrevemos a reconhecer, os nós que continuam enredando nossa vida, o que está pendente de resolução, o que descartamos, o que é inoportuno. Às vezes as crianças expõem as crises de maneira tão contundente que só assim tomamos consciência da importância ou da dimensão de nossos sentimentos. Porque tendemos a não lhes dar maior atenção, a considerá-los banais e a relegá-los à nossa sombra.
Criar bebês é muito árduo porque, assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamentalmente uma "mãe-bebê". As mulheres puérperas têm a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do "mundo-bebê".
E é indispensável que seja assim. A fusão emocional da mãe com o filho é o que garante que a mulher estará em condições emocionais de se desdobrar para que a cria sobreviva.
O desdobramento da alma feminina ou a sua fusão emocional com a alma do bebê é indefectível, mesmo que este processo seja inconsciente. A decisão de trazê-lo à consciência é pessoal. Vale a pena esclarecer que este processo nos surpreende porque não o esperávamos, e em geral costumamos rotular de mil maneiras as sensações incongruentes das mães e as queixas indecifráveis dos bebês. Em muitos casos, são diagnosticadas "depressões pós-parto", quando a única coisa que acontece é um brutal encontro da mãe com a própria sombra."
por Laura Gutman em "A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", p: 24-26.
Aproveitem essas sábias palavras, internalize-as e reflitam sobre sua própria sombra.
"Todas as mães são capazes, desde que tenham um mínimo de apoio emocional, de amamentar, ninar, higienizar um bebê, de proporcionar cuidados físicos necessários à sua sobrevivência. São treinadas para esta tarefa brincando com bonecas durante toda a infância. A dificuldade aparece quando é necessário reconhecer, no corpo físico do bebê, o surgimento da alma da mãe, em toda sua dimensão. Devem admitir sua fragilidade, como "mãe-bebês". Cuidar-se como tal. Respeitar-se com essas novas qualidades. Ser paciente nesta fase tão especial e não exigir de si um rendimento igual ao habitual. Abrir-se à sensibilidade que é aguçada e à percepção das sensações que são vividas com um coração imenso e um corpo que elas, mães, sentem pequeno porque são, ao mesmo tempo, bebê e pessoa adulta.
É como ter o coração aberto, com suas misérias, alegrias, inseguranças, com todas as situações que precisam ser resolvidas, com o que lhes falta compreender. É uma carta de apresentação frágil: isto é o que sou no fundo de minha alma; sou este bebê que chora.
Poderíamos considerar uma vantagem exclusiva das mulheres a possibilidade de desdobrar o corpo físico e espiritual, permitindo que as dificuldades ou as dores pessoais se manifestem com absoluta clareza.
O bebê sente como se fossem seus todos os sentidos da mãe, sobretudo aqueles dos quais ela não tem consciência. A maioria das mulheres não aproveita essa vantagem de ter a alma exposta; é arriscado encarar a própria verdade. No entanto, este é um caminho que inevitavelmente elas percorrerão, embora seja pessoal a decisão de fazê-lo com maior ou menos consciência.
Por isso, ao tentar entender o processo de compreensão dos bebês e das crianças muito pequenas, é indispensável não esquecer que o ser com quem tentamos nos comunicar é, ao mesmo tempo, a mãe que o habita. De fato, as pessoas que trabalham com crianças pequenas deveriam encontrar uma maneira de agir em união com a mãe. Sem a informação pessoal da mãe, sobretudo a informação a que se deve recorrer para que venham à tona, as manifestações das crianças carecem de sentido. Qualquer expressão incômoda do bebê é apenas a melhor linguagem que encontrou para se comunicar. Não é o que acontece; é apenas um modo viável de se expressar.
Quando nossa alma é exposta no corpo do bebê, é possível ver mais claramente as crises que ficam guardadas, os sentimentos que não nos atrevemos a reconhecer, os nós que continuam enredando nossa vida, o que está pendente de resolução, o que descartamos, o que é inoportuno. Às vezes as crianças expõem as crises de maneira tão contundente que só assim tomamos consciência da importância ou da dimensão de nossos sentimentos. Porque tendemos a não lhes dar maior atenção, a considerá-los banais e a relegá-los à nossa sombra.
Criar bebês é muito árduo porque, assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamentalmente uma "mãe-bebê". As mulheres puérperas têm a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo, acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do "mundo-bebê".
E é indispensável que seja assim. A fusão emocional da mãe com o filho é o que garante que a mulher estará em condições emocionais de se desdobrar para que a cria sobreviva.
O desdobramento da alma feminina ou a sua fusão emocional com a alma do bebê é indefectível, mesmo que este processo seja inconsciente. A decisão de trazê-lo à consciência é pessoal. Vale a pena esclarecer que este processo nos surpreende porque não o esperávamos, e em geral costumamos rotular de mil maneiras as sensações incongruentes das mães e as queixas indecifráveis dos bebês. Em muitos casos, são diagnosticadas "depressões pós-parto", quando a única coisa que acontece é um brutal encontro da mãe com a própria sombra."
por Laura Gutman em "A Maternidade e o Encontro com a Própria Sombra", p: 24-26.
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